Os que não esquecem

Actualmente, o mundo tem 7 mil meilhões de pessoas. Eu sou apenas uma delas. Sabes qual é a probabilidade de uma pessoa escolhida ao acaso e...

Actualmente, o mundo tem 7 mil meilhões de pessoas. Eu sou apenas uma delas. Sabes qual é a probabilidade de uma pessoa escolhida ao acaso em todo o planeta me conhecer? Esta é fácil, é verdade, 1 em 7 mil milhões. Difícil não é?
Ainda assim dizemos que "o mundo é pequeno", quando percebemos que é tão fácil encontrar pessoas que tenham familiares ou amigos que sejam nossos conhecidos.
Foi fantástico, para mim, ver duas melhores amigas de infância tornarem-se colegas de turma no Secundário e posteriormente grandes amigas!
Mas se considerarmos que Portugal é uma porçãozinha tão pequenina neste grande globo, então voltamo-nos a lembrar que, de facto, somos algo incrivelmente mínimo.
Pela nossa vida conhecemos incontáveis pessoas. São os nossos grandes amigos por excelência são os amigos assim-assim, são os colegas que conhecemos na escola, são os colegas de trabalho que tivémos, os familiares e amigos de familiares, são os amigos dos amigos, aquela pessoa a quem questionámos algo na rua, aquela pessoa que sabíamos o nome mas nunca lidámos com ela, aquela pessoa que sempre admirámos, ou que sempre evitámos, aquelas pessoas que vemos diáriamente mas nunca nos relacionámos com elas, desconhecemos os seus nomes, crenças, estilo de vida, personalidade, gostos e interesses; são aquelas que nos cruzamos diáriamente, e os seus rostos são nos totalmente indiferentes e desconhecidos.


Pela minha vida houve pessoas que fui naturalmente conhecendo: na escola, na familia, na aldeia, na cidade, na igreja, nos acampamentos. Como costumo dizer, "sempre gostei de estabelecer relações mínimas com as pessoas ao meu redor, inclusive com as responsáveis pelos serviços que adquiro frequentemente". Consequentemente, conheço bastante alguns gerentes de bibliotecas, papelarias, cafés, contínuos e porteiros de escolas, condutores de autocarro.
Com a entrada na Universidade, o medo de deixarmos a nossa habitual cidade passa sempre por nós nem que seja por uma breve vez. Nos casos como o meu, em que sei que tenho de dividir o meu tempo em duas cidades (outrora três) para estar com o pai e a mãe, esse medo duplica.
Muitas das pessoas deixei de as ver por completo, outras fui fazendo um esforço para tentar encontrar no pouco tempo que passava em Viseu com a família, para as ver nem que fosse por uma hora, para matar saudades e trazer ao de cimo lembranças de outrora.

Para falar a verdade, este sentimento de medo de cair no esquecimento das pessoas que tanto fazem a diferença na minha vida, já passara por mim antes mesmo de sair da cidade para encontrar morada temporária em Vila Real.
Ano de 2008, a minha mãe pedira para ser riscada da igreja e com ela, também eu e a minha irmã nos afastámos. Durante cerca de três anos andei perdida, e longe daqueles que sempre foram uma grande família para mim. As férias grandes pareciam uma eternidade sem desbravadores nem acampamentos.
Temi, e por certas alturas achei que isso seria garantido, cair no esquecimento de muitos. Das primeiras vezes que decidi voltar, tive medo do julgamento e avaliação dos outros - daquilo que era eu agora, do que mudou em mim, do que fui outrora, e porque saí e me afastei durante tanto tempo.
Eu era uma deserdada que estava agora novamente a procurar por ajuda e salvação.

Mais tarde vim a arrepender-me por pensar que aquelas pessoas poderiam pensar tão mal de mim. Houve algumas as quais eu senti o quanto mudaram na minha ausência. Uma pessoa que outrora eu considerava como um irmão, agora mostra-se distante e não tem qualquer relação comigo. Mas isso, é uma pessoa.

O irmão dele era tão pequenino quando eu andava com ele, que eu quase que podia jurar que ele nunca mais se lembraria de mim. Dois ou três anos depois, quando ele me viu pela primeira vez, correu ao meu encontro e saltou para os meus braços. Eu estava tão mas tão contente que mal podia conter as minhas lágrimas. Hoje em dia o pequenino ainda se mostra importado quanto à minha presença e sempre que me vê por lá, vem ao meu encontro me dar um beijinho.

Recentemente novamente outra pessoa, que eu sempre pensei que se esquecesse totalmente de mim, veio a mostrar que talvez se lembre ainda mais do que eu me recordo dele. Lembro-me que, nesse mesmo acampamento que fui visitar, em que vi pela primeira vez o meu pequenito, vi essa pessoa. Conhecia-a desde pequenita, lembrava-me bem do seu nome e parece que tenho vagas lembranças de momentos passados com ele aqui e ali.
A Lia ia comigo. Ela cumprimentou-o e falou com ele, ele sorriu, olhou para mim e cumprimentou-me, mas não se demorou a me cumprimentar nem estranhou a minha presença. "Também ele se esqueceu de mim, pensei." Mal eu sabia que nesse dia ainda teria mais desolações assim! Ahahaha
Dois anos mais tarde, ele veio ao assunto de uma conversa com o Joel que, ao que tudo indicava, mostrava que ele se lembrava CLARAMENTE de mim. Alguns meses mais tarde tal veio a se confirmar quando, nem mesmo a calhar, surgiu oportunidade de o perceber.
Alguém com quem não falo à anos, que eu nem sei o que ele sabe ou se lembra de mim mesmo, ainda é capaz de ter na memória a minha pessoa, quando tanta gente próxima de mim ignorou a minha presença tantas vezes!

Podemos ser pessoas mínimas neste mundo enorme, é verdade, mas existem outras que, apesar da nossa ausência, ainda têm gravados na memória a nossa figura, animada da nossa personalidade e características, aspectos negativos e positivos, quem sabe do nosso sorriso.
Os que não esquecem, são aqueles a quem devemos dar valor, são os que, em alguma parte da vida dele, fizeste alguma diferença, ainda que mínima.
E são esses, que se lembram da nossa memória, que nos fazem sorrir quando vemos que não fomos apagados, nem esquecidos, nem tão pouco desbotados em fotografias velhas guardadas em álbuns de fotografia os quais já ninguém desfolha.


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