"Quem não sabe arte, não na estima"

Já dizia Luís Vaz de Camões que "quem não sabe arte, não na estima" (Canto V, estância 97), indignado pela falta de cultura e d...


Já dizia Luís Vaz de Camões que "quem não sabe arte, não na estima" (Canto V, estância 97), indignado pela falta de cultura e desprezo pela escrita e literatura já na sua altura, percebendo a quantidade de heróis portugueses incultos que, contrariamente aos heróis letrados de outros países, eram incapazes de ter "numa mão a pena, noutra a lança" (estânica 96). Ainda hoje, se Camões fosse vivo, com certeza teria a mesma ideia, embora sem heróis - o povo português é um povo que despreza a cultura
Comecemos pelo mais óbvio: a troca de prioridades entre os programas de lazer relacionados com assuntos da vida alheia e futilidades e os que nos oferecem alguma riqueza cultural. Falemos da televisão, que é uma das invenções mais bem sucedidas da história do ser humano da actualidade: toda a gente sabe o que são os "Ídolos", a "Secret Story", os "Morangos com Açucar" e outros programas com uma espantosa escala de audiências, sem qualquer tido de rendimento cultural. Agora perguntemos a alguém: "Viu ontem a reportagem sobre toxicodependência?", "assistiu o BBC Vida selvagem deste sábado?" ou "sabe qual era o tema do documentário de José Hermano Saraiva que passou na RTP2?". As respostas são um pouco óbvias. Agora imaginemos se, ao invés de fazermos estas perguntas, fizéssemos outras como: "em que ano morreu D. Afonso Henriques?", "qual é a personagem principal d'Os Maias?" ou ainda "qual foi o primeiro povo a habitar o espaço português?". Se inicialmente a probabilidade de responderem acertadamente era mínima, imaginemos agora.
O povo português, para além de procurar outros interesses em vez da cultura, não investe minimamente na literatura ou outra área considerada culta. A maioria dos Bestsellers vendidos são de literatura estrangeira: mais facilmente somos cativados por um livro com capa chamativa e contra-capa interessante, do que mais um daqueles livros nacionais que consideramos maçudos. Poucos já são os escritores de renome como Fernando Pessoa, José Saramago e José Henriques dos Santos.
Os portugueses interessam-se por um grande leque de assuntos relacionados com o Homem. Geralmente, não faz parte desse leque a "cultura geral". Por experiência própria, considero desnecessária a aquisição de competências extras que não sejam requeridas na minha vida profissional. Alguém uma vez disse "o saber não ocupa lugar" - e não, talvez não ocupe. Mas o português, prefere prevenir.

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